Dia ... frio e chuvoso ... mas tende a melhorar :)
JULIA
Comecei a lembrar das coisas absurdas que cheguei a fazer para nao me apaixonar.
Para nao ter que passar pela tristeza e amargura de um fim de relacionameto havia decidido nao me apaixonar.
Era uma maneira simples e eficaz.
Ja que eu dona de mim, imaginativa e outrora criativa tambem, bastava so incutir em minha cabeca uma ideia e ater-me a ela: Nao vou me apaixonar.
A escolha para garantir o sucesso de meu fracasso amoroso era simples: Imaginar uma terceira pessoa que ocuparia o lugar da atual que nunca vinha.
Se vinha nao se aproximava porque eu tirava toda e qualquer esperanca de alguem ficar a poucos palmos de mim.
Vejo agora que mal um acontecimento aleatorio pode fazer na vida de uma jovem aos 15 anos.
Sei que meu metodo foi eficaz.
Era estar com Joao e colocar um Joaquim na cabeca.
Pronto estou apaixonada por Joaquim e comecava a fantasiar com Joaquim e olha-lo diferente
e imaginar futuros passeios, e mundos coloridos, e fotos abracados, e as coisas lindas que ele me diria ao ouvido...
as dezenas de cartas e cartoes que viriam com presentes e flores colhidas do chao.
Todas inesperadas.
Como entendia bem as mulheres o Joaquim.
Que sensibilidade... e que nesga de sarcasmo, humor seco... Inteligente alem de tudo.
Pronto... era assim... e Joao?
Pobre Joao estava de coracao partido pela menina que deixava ele dar uma leve espiada entre a porta do mundo da menina... a melhor parte...
No principio so mostramos o que ha de melhor em nos.
Entao Joao ja nao entendia Julia.
A ingrata da Julia que fez com que ele se jogasse aos seus pes.
Filha-da-puta da Julia.
Menina ma.
Por que gosto dela mesmo assim?
Viram so.
A ideia de nao se entregar dava certo.
Seguia ela entao crente de ter feito uma magnifica descoberta.
Pouco sabia do vazio dentro de si.
Nada entendia do que fazia-a chorar vez ou outra sem ao menos razao.
Cousa alguma preenchia aquele vazio na alma.
Ou tampouco apagava a magoa daquele dia.
Os 15 anos viravam 16, e de repente estava galopando nos 18.
E dezenove anos e nada de sentir amor.
Nada de deixar gostar, nem um arranhao... e com orgulho.
Eu?
Perder meu tempo dedicando a vida a alguem que ora ou outra vai me fazer sofrer.
Sou mais eu.
E continuou sendo cada vez mais ela e cada vez menos Julia.
Ja nao lembrava em que parte do tempo e da vida deixou de acreditar em fadas.
Que hora as borboletas pararam de voar e os passarinhos ficaram mudos.
Tinha esquecido o caminho das nuvens e as pedras que chutava no caminho mais pareciam seu proprio eu vazio empurrado pelos pes do tempo.
Era metade de si.
E ainda julgava-se feliz!
Nao dancava mais sem musica.
Tao pouco pensava em torres, moinhos de vento entao?
Qual a ultima vez que comeu maca-do-amor?
Algodao-doce?
E que fez brigadeiro na panela?
Quando ouviu pela ultima vez uma musica brega.
E escreveu uma carta de amor?
Nada...
Joaquim?
Era mais um desapontado por nao poder fazer parte do mundo de Julia.
Porque nesse tao fadado planeta so tinha espaco para um.
E ele ja estava cheio dela.
E logo ela ficou cheia dele tambem.
Perdera o sentido.
Entao ela pensou onde foi que a menina foi parar.
E por que razao havia ficado tao meia.
Meia.
Metade.
Meio chata, meio triste, meio sem graca.
Cade as saias rodadas?
Cade os brilhinhos colados?
Cade a menina dos olhos?
Ela havia se perdido dentro de si.
O mundo cheio e vazio dela.
E a menina sentiu frio e sentiu falta.
Saudades da gente.
Sentir saudades da gente doi.
Porque normalmente o que a gente esquece de nos e dificil lembrar.
Leva um tempo para que a gente possa lembrar dos detalhes.
De como as bonecas tinham vida e esperavam so Julia ir buscar leite morno com Nescau para se movimentarem.
Como a minhoquinha vivia na janela de sua avo na infancia.
A minhoquinha e toda familia...
Como a pia era magica se a gente lavasse bem.
Sabia ate a formula secreta dos ursinhos Gummy.
Mesmo que nao fizesse tao bem aos humanos.
Julia era tambem da comunidade secreta dos Ursinhos Carinhosos...
(mas por favor nao contem isso para ninguem ta? E secreto vai que alguem descobre. Coisas terriveis podem acontecer)
Dancava por todos os lugares da casa.
Subia em arvore... abracava o cachorro... pulava corda.
Julia queria ser atriz de novela e vampiro.
Sonhava sempre com bolhas coloridas grandes que explodiam fazendo um barulho peculiar.
Beijava no rosto muitas e varias vezes.
Conversava com plantas e animais....
Sorria para o mundo com seus vestidos coloridos e bordados feitos pela vo de uma amiga.
Era romantica.
Ia ser feliz e conhecer alguem especial.
Ia ser nomade e talvez nao tivesse filhos.
Mas definitivamente nao ia casar... ao menos nao de noiva.
Embora se visse velhinha com alguem.
E aos poucos Julia comecou a se lembrar das coisas, a sorrir para o nada.
O mundo esquentou e ela pode parar de criar Joaquins, Joses, Pedros...
Ela lembrou da menina que se apaixonou no primeiro beijo.
Do amor platonico.
Da carta com a flor de papel.
Lembrou-se que chorou com a perda do primeiro amor, com a frustracao do segundo... e que nao tinha muito para contar depois disso.
Viu que estava viva, mas que ja era metade.
Que podia ter perdido mais de um amor evitando apaixonar-se.
Chorou.
Sorriu.
Envergonhou-se.
Foi entao a busca de um abismo para se tacar de cabeca.
E despretensiosamente se apaixonou.
Os olhos brilharam, o coracao bateu forte e a razao pulou pela janela.
Julia estava apaixonada e deixou aquilo consumi-la.
Como comer doce depois de dieta Julia empanturou-se na quantia errada.
Era alergica a doces-ilusoes e nem lembrava disso.
Essa segunda decepcao forte fez Julia pensar em desistir de novo do amor e ir atras de Joaquins...
Pensou nisso por algum tempo.
Uns dias talvez.
E a musica tocou...
E uma faisca de esperanca bateu no coracao da menina de 14 anos que ainda existia nela e decidiu ouvir a melodia...
Decidiu abrir o coracao mesmo que machucado.
Em frangalhos ajeitou um cantinho no lado esquerdo de seu peito, dentro do musculo pulsante que dizem so bombear sangue para o corpo e ajeitou o novo morador ali.
Sem nem conhecer seu rosto ela entendera sua alma.
Nao tinha nem cavalo nem espada...
Mas vinha resgata-la de si.
Tira-la do vazio de nao se entregar.
E Julia?
Saltitante e feliz.
Conversa vez ou outra com Borboletas, ri de fadas, anda nas nuvens.
Sonha.
Coisa que ja nem lembrava mais o que era.
[amor.saudades.sorrisos.abracos]
postado por: CHAFFIC FRIEND 7:49 AM
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